Duas manifestações culturais distintas, mas profundamente interligadas em termos de temáticas e intenções artísticas.
Trago-vos a escultura "Karma", do artista contemporâneo Do Ho Suh, que se relaciona com a obra de Fernando Pessoa.
O meu objetivo é evidenciar como estas obras exploram a identidade, a multiplicidade do ser e a construção da subjetividade.
Do Ho Suh é um artista sul-coreano nascido em 1962, em Seul. Após concluir a licenciatura e o mestrado em Pintura Oriental, mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou na Rhode Island School of Design e na Universidade de Yale, obtendo um Mestrado em Escultura.
O artista é amplamente reconhecido pelas suas esculturas e instalações que exploram temas como identidade, memória e o conceito de lar.
Atualmente, o artista divide o seu tempo entre Londres, Nova Iorque e Seul, continuando a exibir o seu trabalho internacionalmente.
Grande parte da sua obra consiste na recriação em tecido de escadas, janelas, corredores, portas de espaços da sua vida.
Suh acredita que a vida é a deslocação do ser entre espaços e por isso reproduz objetos que possibilitam a travessia.
Ou seja, ao replicar esses espaços onde passou, está a expor sob forma de arte a sua vida.
Porém, a escultura que trago hoje afasta-se do reportório habitual do artista. Em 2012, foi-lhe pedido que fizesse uma estátua para um museu que estaria a ser renovado, e o escultor fez "Karma".
É toda feita em metal, com cerca de 7 metros de altura.
Retrata um corpo humano que se multiplica verticalmente, dando a sensação que o faz infinitamente.
O seu significado é subjetivo,
Mas pode simbolizar a fragmentação e o desdobramento do ser em múltiplas versões de si próprio.
Interpretada sob esta perspetiva, "Karma" simboliza o processo de "outrar-se" — um conceito que Fernando Pessoa explorou amplamente através dos seus heterónimos. As figuras repetitivas refletem a desconstrução e reconstrução da identidade, evocando as diferentes máscaras e personalidades assumidas, também verificado na poesia pessoana.
Esta ramificação ilustrada na escultura pode levar a uma confusão psicológica e até ao desconhecimento do "eu", muito característico de Pessoa. À medida que a figura principal se multiplica, vai perdendo características e tamanho, ou seja, vai desvanecendo.
A escultura de Do Ho Suh impressiona pela escala e pela repetição visual, criando uma sensação de continuidade e simultaneidade.
Considero-a esteticamente muito agradável, tal como todo o portfólio de Do Ho Suh e recomendo vivamente que a explorem.
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