quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Filosofia da ciência

Problema da demarcação

 Na filosofia da ciência, não são abordadas questões científica, apenas se discutem e propõem respostas para problemas filosóficos acerca da ciência, muitos deles relacionados com os problemas da epistemologia e do conhecimento em geral.

 O problema da demarcação consiste na tentativa de distinguir o que é ciência do que não é. Esta expressão foi introduzida por Karl Popper. Naquela altura, os filósofos diziam que era possível distinguir a ciência da pseudo-ciência pelo seu método empírico, que é essencialmente experimental e indutivo, isto é, uma ciência tem de sofrer testes e obter resultados que confirmem as hipóteses. 

Perspetiva indutivista

 Segundo esta perspetiva, primeiro há uma observação do problema, que conduz, recorrendo ao raciocínio indutivo, a uma hipótese, que é uma teoria explicativa suportada pela observação. Segue-se uma experimentação, que visa observar e testar a conjetura. Se esta for provada, cria-se uma lei ou teoria universal.

 Esta perspetiva obedece a três aspetos fundamentais:

  •  O ponto de partida da ciência é a observação.
  •  A indução é a única forma de produzir ciência.
  •  A experimentação tem como papel confirmar hipóteses

 Esta teoria tem as suas críticas. 

 Popper e outros críticos do indutivismo consideram que o ponto de partida da ciência não é a observação. O conhecimento e as expectativas da pessoa que observa condicionam o juízo que esta formula sobre o facto observado. O que vemos está subordinado ao nosso enquadramento cultural e mental.

 A segunda crítica afirma que a indução não é a única forma de produzir conhecimento acerca do mundo. Esta objeção reconduz-nos ao problema da indução. Diz que não podemos ter justificação para ver como verdadeiros os enunciados de uma teoria, porque a natureza não é regular.

 Por fim, objeta-se também que a experimentação não tem como papel confirmar ou verificar hipóteses. Devido ao problema da indução, as teorias não podem ser confirmadas, porém podem ser refutadas ou falsificadas. Argumentar indutivamente, na esperança de se confirmar uma hipótese, é uma to condenado ao fracasso, uma vez que seria necessário observar todos os casos possíveis e um contra-exemplo faz uma teoria cair, imediatamente, por terra.

Falsificabilidade

 Popper acredita que nem a indução nem a verificabilidade satisfazem como critério da demarcação. Em alternativa, propõe a falsificabilidade, que nos diz que uma teoria é científica se for empiricamente falsificável, isto é, se puder ser sujeita à crítica e a rigorosas tentativas de refutação, a testes experimentais que ponham à prova as suas predições ou previsões.

 Uma teoria falsificável, ou seja, que é suscetível de ser submetida a testes pelos quais pode concebivelmente ser refuta, é considerada ciência.

 Só a falsidade da teoria, diz Popper, pode ser inferida de provas empíricas. E essa inferência é dedutiva. O método da ciência não é indutivo, mas dedutivo: a falsificação ou refutação de teorias é, claramente, uma inferência válida, pois obedece à forma argumentativa A→B, ⌐B ∴ ⌐A (modus tollens).

Se a teoria for uma boa explicação da realidade, então ocorre o que a teoria prevê. Não ocorre o que a teoria prevê. Logo, a teoria não é uma boa explicação da realidade.

 Pelo contrário, pretender que as provas empíricas confirmem ou verifiquem teorias é incorrer numa falácia. A→B, B ∴ A (falácia da afirmação da consequente).

 Algumas teorias científicas são falsificáveis em maior grau do que outras. As teorias falsificáveis em maior grau são as cientificamente mais interessantes. Quanto mais informação ou maior for o conteúdo empírico de uma teoria, quanto mais preciso e audacioso for um enunciado, maior será o seu grau de falsificabilidade.

 Popper defende que a ciência é um empreendimento hipotético-dedutivo que começa e termina com problemas. Ainda que a hipótese ou teoria guie a investigação, são os problemas ou as situações problemáticas que desafiam a procurá-la, a explicar, a experimentar e a observar. Ou seja, para Popper, a génese de uma teoria não é a observação, mas sim a problemática. A procura de respostas para o problema, uma dificuldade que incentiva à busca, dá lugar a uma hipótese, a uma suposição, conjetura ou tentativa de teoria.

 Submete-se, então, a teoria ao exame crítico e a rigorosos testes experimentais de falsificação. O objetivo é a deteção e eliminação de erros.

 Se a teoria se revelar total ou parcialmente errada, diz-se falsificada, e é abandonada ou é modificada. Do esforço de eliminação de erros e da revisão crítica das teorias emergem novos porquês, novos problemas, que, por sua vez, inspiram novas e mais ousadas tentativas de teoria. E assim sucessiva e renovadamente.

 Se esta resistir aos testes, diz-se corroborada (algo muito diferente de "verdadeira"), mas permanece para sempre uma suposição.

Problema da evolução e da objetividade

 Quando abordamos o problema da evolução do conhecimento científico, procuramos saber se as teorias que defendemos na atualidade estão mais próximas da verdade do que as anteriores, ou seja, investigamos se a ciência evolui de uma maneira progressiva, se há em ciência progresso cumulativo.

 Ao refletirmos sobre o problema da objetividade do conhecimento científico questionamos se a mudança na ciência é guiada por princípios puramente racionais ou se, em contrapartida, na escolha entre teorias rivais interferem fatores de outra ordem, como, por exemplo, as pressões a que a comunidade científica está sujeita por parte das autoridades políticas, religiosas ou da sociedade em geral.

 À pergunta "Há progresso em ciência?", Popper responde que o progresso científico consiste na substituição de teorias velhas e piores por novas mais próximas da verdade. Estas são comparativamente superiores. A verdade é inalcansável, mas funciona como ideal regulador. Somos guiados pela procura de teorias verdadeiras e por isso nos esforçamos tanto por eliminar erros. Popper diz que o ser humano aprende com o erro e que este é o motor de progresso na ciência. O conhecimento científico progride assim por meio de conjeturas e refutações.

 Quanto à problemática da ciência ser objetiva, Popper afirma que o conhecimento científico, enquanto sistema de enunciados (proposições) que podem ser comparados, submetidos à discussão crítica e a um método baseado numa forma de inferência válida, é – ainda que agora e sempre hipotético e conjetural – racional e objetivo.

 Recapitulando, para Popper, há progresso na ciência e esta é objetiva.

 A teoria de Popper é suscetível a objeções.

 Alguns dos seus adversários sublinham que o racionalismo crítico é historicamente incorreto, já que nem sempre descreve com rigor os desenvolvimentos científicos mais importantes nem se ajusta à realidade da história da ciência. Houve ocasiões em que conjeturas foram falsificadas, mas os ciêntistas não desistiram delas e continuaram a acreditá-las e a trabalhá-las. Mais tarde, provou-se que os contraexemplos estavam incorretos. Se estes cientistas tivessem obedecido a Popper, as teorias teria sobrevivido.

 Uma crítica diferente é dirigida ao facto de o falsificacionismo sobrevalorizar o papel do erro e desprezar as previsões bem-sucedidas, bem como o seu papel no desenvolvimento da ciência.

 Atualmente, o modo predominante de se fazer ciência é o método indutivo. Pooper tem uma perspetiva negativa da ciência. Diz que o objetivo dos cientistas é falsificar a ciência, o que não é verdade. Eles apenas querem saber se esta funciona, por isso é que ainda se recorre ao indutivismo

Resposta historicista de Thomas Kuhn

 Tal como Popper, Kuhn foi um crítico das teorias indutivistas e da sua perspetiva de progresso na ciência, mas foi-o também de Popper e do falsificacionismo. Um dos pontos centrais da sua teoria é a importância que atribui ao caráter revolucionário da mudança em ciência.

 Uma revolução científica supõe o abandono de uma estrutura teórica e prática (a que chama paradigma), isto é, de um certo modo de ver o mundo e de praticar ciência, que é substituída por uma outra incompatível e incomparável com ela. O termo revolução é usado por analogia com a história política e sugere descontinuidade entre paradigmas.

Para Kuhn, as revoluções científicas são episódios relativamente raros na história da ciência. Contudo, são elas que explicam as mudanças no conhecimento científico, a descontinuidade que marca a transição entre teorias e as transformações em ciência.

 A partir do momento em que um novo paradigma se impõe, a ciência entra num processo cíclico, em que se alternam três fase: fase normal, fase crítica e fase revolucionária.

 Há incomensurabilidade entre o velho e o novo paradigma, ou seja, são divergentes e incomparáveis.

 Os cientistas que aderem a cada um dos paradigmas em conflito – o antigo e o novo paradigma – possuem diferentes visões do mundo. Olham para a mesma realidade, do mesmo ponto e da mesma direção mas veem mundos diferentes.

 Kuhn considera que não há progresso na ciência, apenas há dentro dum paradigma. Como os paradigmas são incomensuráveis, toda a mudança implica descontinuidade. O desenvolvimento da ciência não se faz no sentido evolutivo duma aproximação progressiva à verdade.

 Considera também que a ciência não é objetiva. A adesão dos cientistas a um dado paradigma ou modelo é comparável a um ato de fé ou a uma conversão religiosa. Os fatores psicológicos, políticos, económicos, sociais e culturais são decisivos na escolha entre teorias rivais.

 Kuhn é acusado de irracionalismo, porque, ao dar tanto peso a fatores ideológicos, iguala-los ao pensamento científico. Diz que o que dita mudança em ciência são fatores externos à teoria, dos quais nem sempre os cientistas estão conscientes.

 Foi também acusado de defender uma forma de relativismo, porque a sua tese da incomensurabilidade e o pressuposto da descontinuidade entre paradigmas nos impedem de falar, de acordo com o próprio, de aproximação à verdade e de teorias melhores e teorias piores.

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